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janeiro 22, 2009
Falsos Parentes

A fraude canónica da ciência, e o "nec plus ultra" da sacanagem em Biologia, foi certamente o Homem de Piltdown. Eoanthropus dawsoni era supostamente o fóssil de um hominídeo datado do Pleistoceno. O nome vulgar seguiu a regra comum em espécimes de hominídeos, sendo derivado do local de descoberta (Homem de Peking, o Homem de Java, etc), Piltdown em Sussex, Inglaterra. O cavalheiro teve seu debut social ao ser apresentado em reunião da Royal Society em Londres, em dezembro de 1912. Imediatamente tornou-se uma sensação, não só na comunidade científica, como também na comunicação social da época. O Homem de Piltdown seria o famigerado Elo perdido, um título itinerante em biologia humana, que hoje em dia se encontra em posse, diriam alguns, do Presidente Bush, diriam outros, do grande Steven Seagal.
A fraude durou quase meio século, até 1953. A bem da verdade, Eoanthropus não se enquadrava na sequência de hominideos predominante, e mesmo muitos dos antropólogos que não suspeitavam da sua autenticidade acreditavam que ele representava uma linhagem menor, um cul-de-sac da evolução humana.
O caso de Piltdown foi obviamente premeditado e laboriosamente executado, e por isso a fraude persistiu durante tanto tempo. Se me permitem um momento Martha Stewart, aqui vai a receita do Homem de Piltdown, segundo uma equipa de investigadores do British Museum:
1 crânio humano medieval
1 mandíbula de orangotango de Sarawak
Dentes fossilizados de chimpanzé a gosto
Temperar com solução férrica e ácido crómico
A historia do Homem de Piltdown tem um elenco enorme de suspeitos; o acusado mais frequente é o próprio descobridor, Charles Dawson. Os participantes das escavações em Sussex e da análise de Eoanthropus incluíram figuras como Sir Arthur Woodward, curador de história natural no British Museum, Conan Doyle (o criador de Sherlock Holmes) e Pierre Teilhard de Chardin*, vários dos quais foram apontados à vez como sendo o culpado. Como no caso de Jack o Estripador, a fraude de Piltdown originou muitas teorias, algumas banais, outras apontando vastas conspirações. E como no caso do entusiasta amador da cirurgia em Whitechapel, não sabemos de quem foi a culpa.
* Pierre Teilhard de Chardin foi um padre Jesuíta que se dedicou a biologia, tentando adaptá-la aos desígnios Divinos. Em termos objectivos, está para a Biologia séria, com B maiúsculo, como Britney Spears está para a mecânica quântica. A sua obra "The Phenomenon of Man" foi objecto de uma devastadora crítica do nobel Peter Medawar, de onde tiro esta pérola: “It would have been a great disappointment to me if Vibration did not somewhere make itself felt, for all scientistic mystics either vibrate in person or find themselves resonant with cosmic vibrations; but I am happy to say that on page 266 Teilhard will be found to do so.”
Publicado por tentilhão às janeiro 22, 2009 08:47 AM