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outubro 21, 2008
Darwin e a Idade da Terra (cont.)

Foto: Galeria de fósseis montada na Fundação Calouste Gulbenkian durante a conferência "Darwin: entre a Terra e o Céu" de Carlos Marques Silva. Fósseis cortesia da Dra Liliana Póvoas, Museu Nacional de História Natural.
Segunda parte do texto do Prof Greg King sobre a luta entre Darwin e Kelvin a respeito da idade da Terra. Clique aqui para ler a primeira parte.
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Kelvin estava convencido que a luminosidade do Sol era produzida através da conversão da energia gravitacional em calor. Ele argumentava que a fonte primária de energia disponível para o Sol era a energia gravitacional dos meteoros primordiais a partir dos quais teria se formado a nossa estrela. Foi com grande autoridade e eloquência que Kelvin declarou em 1862:
“O facto de que alguma versão da teoria meteórica é certamente a verdadeira e completa explicação do calor solar dificilmente pode ser questionado, quando as seguintes razões são consideradas: (1) Nenhuma outra explicação natural, excepto a da acção química, pode ser concebida. (2) A teoria química é deveras insuficiente, pois a acção química mais energéticas que conhecemos, tendo lugar entre substâncias que correspondessem a toda a massa solar, gerariam calor apenas durante 3000 anos. (3) Não há dificuldade em contabilizar 20,000,000 anos de calor pela teoria meteórica.”
Como acreditava que Darwin estava errado quanto a idade da Terra, Kelvin acreditava que Darwin estava também errado na sua estimativa do tempo disponível para a operação da selecção natural.
Lord Kelvin estimou o tempo de vida do Sol, e por extensão da Terra, da seguinte maneira. Ele calculou a energia gravitacional de um objecto com massa e raio iguais aos do Sol e dividiu o resultado pela taxa pela qual o Sol dissipa energia. Este cálculo deu um tempo de vida solar de somente 30 milhões de anos. A estimativa correspondente para a energia química era de um tempo muito mais curto, pois os processos químicos libertam pouca energia.
Darwin ficou tão abalado pela força analítica de Kelvin e pela sua autoridade em assuntos teóricos que nas últimas edições da “Origem das Espécies” eliminou qualquer menção de escalas temporais específicas. Ele escreveu a Alfred Russel Wallace , o co-descobridor da selecção natural , queixando-se de Kelvin:
“As opiniões de Thomson sobre a idade recente do mundo tem sido durante algum tempo um dos meus problemas mais dolorosos.”
Darwin viu números crescentes de Geólogos interpretarem seus dados de acordo com os limites cronológicos de Kelvin. Na edição final da “Origem das Espécies”, Darwin fez seu último comentário sobre o tópico:
“Com respeito ao lapso de tempo não ter sido suficiente desde a consolidação de nosso planeta para a quantidade presumida de mudança orgânica, e esta objeção, defendida por Sir William Thomson, é provavelmente uma das mais graves avançadas até hoje, eu só posso responder, primeiro, que não conhecemos a medida em anos da taxa da mudança das espécies, e segundo, que muitos filósofos ainda estão relutanctes em admitir que sabemos o suficiente a respeito da constituição do universo e do interior do nosso globo para especular com segurança sobre a sua duração passada.”
Como palavra final, não era propriamente uma grande defesa, mas tão pouco constituía uma rendição.
Durante os dez últimos anos da vida de Darwin, a Geologia conformou-se predominantemente à cronologia de Kelvin, enquanto a paleontologia acumulava evidências a favor da evolução gradual de novas espécies. Passariam mais de 20 anos depois da morte de Darwin até a descoberta da radioactividade lhe dar a resposta que esperava.
Em 1896 Henri Becquerel guardou chapas cobertas com urânio na gaveta de uma secretária, ao lado de chapas fotográficas embrulhadas em papel escuro. Como Paris esteve encoberta por nuvens durante alguns dias, Becquerel não pode "energizar" (impressionar) as suas chapas fotográficas expondo-as ao Sol como pretendia. Ao revelar as chapas, ficou surpreso ao encontrar imagens fortes dos seus cristais de urânio. Tinha acabado de descobrir a radioactividade natural, oriunda da transformação nuclear do urânio.
A relevância da descoberta de Becquerel tornou-se aparente em 1903, quando Pierre Curie e Albert Laborde anunciaram que os sais de rádio libertavam calor continuamente. O aspecto mais extraordinário da descoberta foi que o rádio emitia calor sem arrefecer, mesmo à temperatura ambiente. A radiação do rádio revelou uma fonte de energia até então desconhecida. A seguir, Ernest Rutherford descobriria que quantidades enormes de energia eram libertadas pela radiação de partículas alfa por substâncias radioactivas. Em 1904 ele anunciou :
“A descoberta dos elementos rádio-activos (sic), que na sua desintegração libertam quantias enormes de energia, aumenta portanto os limites possíveis da duração da vida neste planeta, e permite o tempo reclamado por geólogos e biólogos para o processo de evolução.”
Greg King
29 de Setembro, 2008
Publicado por tentilhão às outubro 21, 2008 10:08 AM