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julho 04, 2008

AS PORTAS DA PERCEPÇÃO

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Delírio malarial nas selvas do Sul Asiático.


A carta bomba continha um manuscrito entitulado “Da Tendência das Variedades de Divergirem Indefinidamente do Tipo”. Por trás do título seco estava a síntese de uma teoria em muitos aspectos idêntica à que Darwin vinha desenvolvendo há duas décadas. Os seus pontos principais estavam todos lá:

- As espécies não seriam entidades fixas, mudavam com o tempo, e as espécies actuais seriam descendentes de espécies que existiram no passado. Esta parte não causou grande ansiedade a Darwin: a ideia da Evolução (“Transformismo”) já estava em voga. Um dos grandes sucessos editoriais da época no Reino Unido, “Os Vestígios da História Natural da Criação” sustentava abertamente esta tese. Mais directamente, o próprio Wallace já tinha publicado uma defesa concisa e bem argumentada da descendência comum dos seres vivos. Ao ler este artigo de 1855*, o amigo e mentor de Darwin, Charles Lyell aconselhou-o a publicar sua teoria o quanto antes, pois Wallace seguia a mesma pista. Darwin não lhe deu muita atenção. O seu enfoque era o mecanismo responsável pela evolução das espécies, algo que não aparecia de todo no artigo. Mas a questão atormentava Wallace, e diz a lenda que durante um terrível episódio de malária, no meio da tórrida selva tropical do Bornéu, enrolado numa manta a tremer de frio, veio a revelação. Os pontos seguintes foram os que causaram pânico no pacato ambiente de Down House.

- Na natureza as espécies não eram entidades monolíticas. Pelo contrário, eram compostas por indivíduos com características heterogéneas, estes mais altos, aqueles mais peludos, e assim por diante.

- Estas diferenças são heriditárias, passando dos pais para os filhos.

- Os pais têm, em geral, muito mais filhos dos que podem sobreviver.

As consequências destes três pontos eram claras. Na natureza não existe um estado de harmonia, e sim uma constante e selvagem competição. Qualquer pequena vantagem de um indivíduo em relação aos outros aumentaria as suas chances de sobreviver e deixar descendentes. Um pouco mais de pêlo num ano frio, ou então poder colher alimentos em galhos altos em anos de seca poderiam ser a diferença entre a vida e a morte. Sendo estas diferenças heriditárias, a cada geração as características da população seriam ligeiramente distintas da geração anterior. Ao longo de milhões de anos, estas pequenas alterações acumular-se-iam, de geração para geração, até produzirem espécies novas, com novas formas físicas, novos hábitos, a capacidade de colonizar novos ambientes, etc...

Darwin estava arrasado. Acontecera exactamente aquilo de que Lyell tentara avisá-lo. Em desespero, escreveu “Toda a minha originalidade, seja ela qual for, foi destruída”. O cientista estava face a um terrível dilema moral. Como proceder?
(cont.)


*”Sobre a Lei que tem governado a introdução de novas espécies”.

Publicado por tentilhão às julho 4, 2008 05:00 PM

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