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maio 07, 2008
COISAS QUE PERDEMOS PELO CAMINHO

Barbourorula kalimantanensis
As ilusões, os cabelos, a juventude... e no caso de um pequeno anfíbio do Bornéu, os pulmões.
Dentre as questões que causavam confusão ao nosso patrono Charles Darwin, tinha especial lugar o desaparecimento de órgãos, pêlos, pigmentos e outras características. Como explicar este fenómeno pelo mecanismo da Selecção Natural? Após algum tempo a lutar com explicações para o conhecido caso do desaparecimento dos ohos em peixes e outros animais de caverna, Darwin finalmente atirou a toalha ao chão e apelou para o mecanismo Lamarckiano da herança de caracteres adquiridos- ou como era mais popularmente conhecido na época, os efeitos do uso e desuso.
Darwin escreve exasperadamente no capítulo V da "Origem das Espécies":
"É de conhecimento geral que muitos animais, pertencentes às mais diversas classes, que habitam as cavernas da Styria* e do Kentucky, são cegos. Em alguns dos caranguejos, o pedúnculo do olho permanece, mas o olho perdeu-se; o tripé do telescópio está lá, mas o telescópio com suas lentes já não. Como é difícil imaginar que os olhos, embora inúteis, poderiam ser de qualquer maneira injuriosos aos animais que vivem na escuridão, eu atribuo a sua perda inteiramente ao desuso."
Para atirar gasolina no fogo surgem agora David Bickford e os seus colegas na Universidade de Singapura a introduzirem nas páginas da revista "Current Biology" o primeiro caso de um sapo sem pulmões. A espécie, Barbourula kalimantanensis, foi descoberta nas montanhas do Bornéu, num habitat extremamente ameaçado pela actividade mineira e pelo desflorestamento. O pequeno batráquio respira através dos poros da pele, o que só e´possível devido à alta concentração de oxigénio no riacho onde vive, por isso é extremamente sensível a variações ambientais**.
O mecanismo do desaparecimento de estruturas persiste como tema de debate acirrado na comunidade científica. A explicação mais simples é a da neutralidade: como a maior parte das mutações que ocorrem tem efeito negativo, a Seleção Natural age como um editor permanente do genoma, eliminando erros a cada geração. Quando a Seleção deixa de operar- quando por exemplo se coloniza um ambiente sem luz, a pressão selectiva deixa de operar, e as mutações que afetam, por exemplo, o desenvolvimento dos olhos, acumulam-se sem correção.
Paradoxalmente, a descoberta de Bickford despertou interesse em muitos biólogos pela oportunidade que oferece para compreendermos melhor como evoluíram os pulmões quando os primeiros animais se aventuraram pelo meio terrestre.
* Região no sudeste da Áustria.
** Actualmente os anfíbios em geral estão em acelerado e preocupante declínio populacional.
Publicado por tentilhão às maio 7, 2008 03:22 PM