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maio 23, 2008

"HE THINKS LIKE NATURE"

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"Ele pensa como a Natureza", foi assim que um colega descreveu Saul Adler (1895-1966), um elogio díficil de superar para um cientista.


Nascido numa pequena cidade Russa no final do século XIX, o jovem Saul e sua família emigraram para Leeds, Inglaterra em 1900. Após concluir os estudos de Medicina, foi enviado pelo exército de Sua Majestade à Mesopotâmia, onde teve seu primeiro contacto com a medicina tropical. A Parasitologia tornou-se a sua especialidade, com ênfase na Leishmaniose, mas também com importantes contribuições para a malária, lepra e infecções de Theileria que dizimavam as vacas leiteiras importadas para a Palestina (desenvolveu uma vacina eficaz para a teileríase bovina). Por conta de uma febre que Adler descobriu ser transmitida por carraças do gênero Ornithodoros que infestavam ratos em cavernas, as incursões espeleológicas foram durante décadas proibidas aos soldados israelitas. Mais prosaicamente, os hamsters que hoje proliferam por lares e laboratórios descendem de uma fêmea trazida em 1930 da Síria por Adler. Diz uma lenda mais ou menos credível que durante a Segunda Guerra Mundial servia de “computador humano” às forças Aliadas- um google para doenças infecciosas numa guerra que alastrava pelo trópicos.

Adler era um notável poliglota, que dava seminários inclusivamente em português. Foi o primeiro a traduzir a “A Origem das Espécies” para o Hebraico. No entanto, Saul Adler não aparece na nossa história por esta curiosidade bibliográfica. Em 1959 ele propôs uma solução interessante para um dos mistérios recorrentes da Darwinologia: de que mal sofria Charles Darwin? Sabemos apenas que após a sua vigorosa juventude de caçador, explorador e naturalista, Darwin passou as últimas décadas em constante estado de convalescença. Retirou-se para a bucólica Down House em 1842 e lá permaneceu até sua morte em 1882. Em boa parte dos dias, conseguia trabalhar apenas duas ou três horas antes de ser vencido pela fadiga. Além do cansaço crônico, Darwin relatou uma impressionante litania de sintomas ao longo dos anos, vómitos, dores de cabeça, tremuras, palpitações cardíacas, etc… Acompanha esta lista a sua sombra, a lista de possíveis causas, entre elas o envenenamento por arsénico, depressão, “gota suprimida” e alergia aos pombos (no caso desta última é permitido aos leitores da “Origem das Espécies” um fugaz momento de schadenfreude).

A pista chave está nesta passagem do diário do Beagle, de 25 de Março, 1835:

“A noite sofri um ataque do Benchuca, uma espécie de Reduvius, o grande insecto negro dos Pampas. É intensamente enojante sentir insectos macios e sem asas, de uma polegada de comprimento, rastejando pelo nosso corpo. Antes de sugarem são bastante magros, mas a seguir incham com sangue (…)”

O visitante noturno de Charles hoje em dia é conhecido pelo nome científico Triatoma infestans, e sua fama, ou infâmia, na comunidade médica vem do facto de ser o vector do Mal de Chagas. A picada do insecto transmite o parasita Trypanossoma cruzii, que muitas vezes estabelece uma doença crónica, que pode durar várias décadas, consistente com muitos (mas não todos) dos sintomas de Darwin.

Publicado por tentilhão às maio 23, 2008 02:57 PM

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