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maio 08, 2008
FESTA ESTRANHA COM GENTE ESQUISITA

"Uma coisa de confecção imortal, não humana, com fronte de leão e cauda de serpente, uma cabra ao meio, e seu sopro libertava a terrível chama de fogo luminoso."*
Assim Homero nos apresenta na Ilíada a Quimera, criatura imaginária que aterrorizava a Antiguidade. "Bricolagens" do Reino Animal abundam nos relatos de diversas civilizações- os gregos também punham asas nos cavalos (para não falar de algumas senhoras com comportamentos digamos heterodoxos com touros e outros animais), os egípcios tinham a sua Esfinge e os Aztecas quando se depararam com os Conquistadores a cavalo concluíram logicamente que se tratava de centauros. Muitos relatos eram apoiados por "espécimes"- em geral qualquer coisa costurada a qualquer outra poderia ser encontrada pelo menos num bestiário medieval. Esqueletos de sereia não chegavam a rivalizar com pedaços da Cruz, mas talvez excedessem o número de omoplatas de São João Baptista.
Por isso, quando viajantes ingleses no apagar das luzes do século XVIII trouxeram não só relatos, mas também espécimes da bizarra fauna Australiana, foram recebidos com uma saudável dose de cepticismo. Três décadas mais tarde, Darwin testemunharia a sua veracidade com os próprios olhos durante a passagem do Beagle por New South Wales. Confrontado com o ornitorrinco, Darwin exclamou que um descrente ao ver tal coisa postularia que certamente dois "Criadores distintos" seriam necessários para explicar sua existência. Quase tão improvável como a Quimera, o ornitorrinco tem pêlo e produz leite como um mamífero qualquer, mas não possui mamilos. A característica anatómica mais saliente à primeira vista é o bico, de onde vem seu nome, literalmente "nariz de passáro". O seu modo de reprodução permaneceu um mistério durante muitos anos, pois o pequeno animal habita labirínticas tocas subterrâneas, até que em 1884 Wiliam Caldwell enviou um telegrama sucinto e definitivo: "Monotremos ovíparos, embriões meroblásticos". Ou seja, a espécie põe ovos, ao invés de dar à luz a prole viva**. Portanto ao esclarecer um mistério, Caldwell aprofundou outro: como classificar o ornitorrinco? Os detalhes ímpares acumularam-se, as patas com membranas entre os dígitos, tal como nas aves aquáticas, a capacidade de produzir veneno semlhante à dos répteis, etc, etc...
A revista "Nature" de hoje põe em cena uma verdadeira avalanche de novas informações descobertas a partir publicação da sequência do genoma do ornitorrinco. O trabalho de um consórcio liderado pelo Centro de Sequenciamento Genómico da Universidade Washington (Saint Louis, EUA) essencialmente mostra que na sua composição molecular, o ornitorrinco se assemelha a uma Quimera genética. As proteínas do seu leite, por exemplo, são codificadas por um grupo de genes que se assemelham ao seu correspondente em humanos e outros mamíferos. Já o seu ovo parece ser pelo menos em parte constituído pelo produto de um gene encontrado em galinhas. Outros traços marcantes, como seu cocktail de venenos, parecem ter evoluído independentemente nos ornitorrincos, e embora tenham semelhanças funcionais com os venenos reptilianos, representam um caso de evolução convergente.***
As conclusões iniciais são provocantes, mas como todas as sequências genómicas, a sua publicação marca o início de um programa de investigação, muito mais do que um término.
*Terrível mesmo é a tradução que o blog faz de um dos maiores clássicos da Literatura mundial. Em geral o blog tem medo mas não tem vergonha, neste caso é o contrário.
** Monotremata é a Ordem de mamíferos a qual pertencem os ornitorrincos. Meroblástico refere-se ao modo de divisão (ou clivagem) do embrião- que neste caso difere dos mamíferos restantes, holoblásticos.
*** Evolução Convergente: o desenvolvimento de características semelhantes por vias completamente independentes- pense nas asas dos passáros e dos morcegos.
Esta entrada é dedicada ao Dr. Pacheco Pereira, cujo blog cumpre hoje mais um ano, que parece ter um gosto especial por ornitorrincos.
Publicado por tentilhão às maio 8, 2008 12:22 PM