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fevereiro 22, 2008

DO DIÁRIO DE VIAGEM DO BEAGLE

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Ruínas de Concepcion, Chile.

(Terramoto cont. Leia a parte 1 aqui.)

Como vimos, a 20 de Fevereiro, nosso herói sentiu tremores de terra curiosos, mas aparentemente incosequentes, durante sua passagem pela ilha de Chiloe. Dois dias mais tarde, na entrada de 22 de Fevereiro de 1835 no seu diário, Darwin é forçado a rever ésta avaliação. Darwin desembarca primeiro na ilha de Quiriquina e só dois dias mais tarde vai ao continente, visitando as vilas de Talcuhano e Concepcion. O HMS Beagle está ancorado na baía de Concepcion, também no Chile.

"Enquanto o navio se deslocava para o local de ancoragem, à distância de algumas milhas, fui desembarcado na ilha de Quiriquina. O mordomo da estância rapidamente se dirigiu a nós para nos contar as terríveis notícias do grande sismo do dia 20; 'que nem uma única casa se mantinha de pé em Concepcion ou Talcuhano (o porto); que setenta vilas tinham sido destruídas; e que uma grande onda tinha praticamente levado as ruínas de Talcuhano'."

Na ilha de Quiriquina, afectada pelo efeito do tsunami, tal como o porto de Talcuhano, no continente, a praia está coberta de despojos que incluem não só partes e restos de habitações, como animais afogados e pedaços de rochas arrancados do fundo do mar. Para além disto, o tremor de terra provocou o desabamento de terra em vários pontos da costa. No interior da ilha, Darwin nota que as fissuras e rachas abertas pelo sismo tem uma orientação predominantemente Norte-Sul. Na cidadezinha de Concepcion cada fila de casas foi reduzida a uma linha de escombros, entre os quais se reconhece ainda o que foram as ruas; mas, em Talcuhano, por acção do tsunami, a planta da vila é irreconhecível e as ruínas estão caoticamente espalhadas ao longo da costa toda. Darwin considera surpreendente o número de sobreviventes (as estimativas apontam para uma a duas centenas de mortos) se comparado com o nível de destruição observado. Este facto deve-se provavelmente, adianta Darwin, à hora a que ocorreu o sismo (11:30 da manhã) e ao facto dos habitantes da região estarem “treinados” para reagir ao menor abalo sísmico, abandonando imediatamente as casas.

"O efeito mais evidente (ou talvez mais correctamente, a causa) deste sismo foi a elevação permanente da terra. O Capitão FitzRoy, tendo já visitado por duas vezes a ilha de Santa Maria, com o objectivo de examinar cada circunstância com extrema precisão, recolheu uma quantidade de evidência que prova esta elevação (...) É quase certo, pelas alterações observadas, juntamente com a circunstância do fundo da baía perto de Penco ser de rocha dura, que se provocou um levantamento de, pelo menos, 7.3 metros (1), desde o famoso abalo de 1751. Com esta nova ocorrência ainda fresca na memória, podemos assumir como possível, de acordo com os princípios definidos pelo Sr. Lyell*, outras pequenas e sucessivas elevações, e manter categoricamente que a questão das conchas elevadas, descritas pelo senhor Ulloa, está?explicada."

(*Lyell's Geology, Tomo ii, capítulo. xvi)

É preciso salientar que “A Viagem do Beagle” só é escrito por Darwin, com base nas notas que tomou durante a viagem, depois de regressar a Inglaterra, em 1836. Por isso Darwin acrescenta às descrições que faz, dados e conclusões que só recolheu depois. De relevância, no caso deste sismo, é toda a actividade vulcânica que lhe esteve associada e que continuou depois dos abalos, nomeadamente, a entrada em actividade de várias chaminés vulcânicas da Cordillera central do Chile, e de um vulcão submarino próximo da ilha de Juan Fernandez. Como defendido por Lyell, um geólogo eminente na época, cujos livros Darwin leu durante a viagem, darwin conclui que estes processos, continuados ao longo de milhares de anos, contribuirão para elevar porções de terra. Só assim é possível explicar, por exemplo, a presença de fósseis de animais aquáticos e de conchas no topo de montanhas, como darwin vem a observar depois. A actividade de vulcões explica também as incursões de línguas de rocha vulcânica em estratos rochosos mais antigos – um fenómeno que Darwin observa em abundância quando atravessa a Cordillera Chilena, duas semanas mais tarde.

Embora Darwin formule a teoria de evolução por selecção natural apenas depois do seu regresso a Inglaterra, há duas ideias que parecem começar a formar-se durante a viagem do Beagle: primeiro, a ideia de que o efeito cumulativo de procesos de pequenas dimensões pode, ao fim de milhares de anos, produzir fenómenos aparentemente espetaculares – como a presença de conchas vários quilómetros acima do nível do mar; segundo, a ideia de que os processos que estiveram activos no passado para produzir fenómenos que hoje são “espetaculares” continuam a fazer-se sentir no presente – como a ocorrência de sismos e de vulcões. Estas duas ideias são aspectos fundamentais da ideia de “transformação” de seres vivos, ou evolução, por efeito de selecção natural que Darwin vem a propor mais tarde.


Publicado por tentilhão às fevereiro 22, 2008 04:40 PM

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